Publicado em 02.07.2019 às 08:10

Educação tem chances de avançar

Mesmo que atrasado na universalização e na criação de instrumentos para a melhoria do ensino, os recentes investimentos em educação no Brasil devem render resultados nos próximos anos. Mas, para isso, não se pode permitir o travamento dos ponteiros do relógio do tempo, repetindo os mesmos erros do passado. A Base Nacional Comum Curricular(BNCC), embora não considerada perfeita, eaBase Nacional Comum da Formação de Professores são fundamentais e consideradas um norte para o fim das desigualdades educacionais e da qualidade do ensino para todos.

Segundo Claudia Costin, diretora do Ceipe - Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro,épreciso colocar um fim na visão limitadora que o Brasil é um país pobre. “Somos um país desigual. Com currículo, formação do professor e atratividade da carreira, política públicas de apoio à prática profissional e incentivo ao protagonismo do aluno, ensinando-o a empreender em sua própria vida escolar,aeducação tem grandes chances de avançar”, diz ela, acrescentando que se deve ter altas expectativas em relação a todos os alunos, equilibrando excelência com equidade. “Não é possível imaginar uma escola de excelência para alguns que se destacam e o resto qualquer coisa serve.”

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As respostas para o atual status da educação estão no passado?

Claudia Costin - São vários pontos a serem levados em conta. Um deles é o atraso para universalizar o acesso à educação pública. Em 1930, a Argentina tinha 62% das crianças nas escolas e o Chile 73%, enquanto que Brasil e Coreia estavam em situações semelhantes, 21,5% e 22%,respectivamente. Traçando uma linha evolutiva do tempo, a Coreia universalizou o ensino fundamental em 1960, ano em que nosso percentual era de 40%. Quando se olha para o passado, constata-se que boa parte dos problemas, inclusive de desigualdades sociais, está relacionada ao fato que se demorou demais para colocar todos na escola.

Feita a universalização, o Brasil esqueceu de imprimir qualidade no ensino?

Claudia - Houve progresso em acesso à educação, no entanto, a aprendizagem avançou muito pouco. A Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), aplicadano 3º ano do ensino fundamental 1, aponta que 55% das crianças estão com leitura insuficiente, ou seja, são analfabetos funcionais, e 54,3% com desempenho insuficiente em matemática. No entanto, a cada edição da Prova Brasil percebemos que há melhora nas notas do 5o ano, algumas no 9º ano e nenhuma evolução no 3º do médio. Convivemos comum drama: estamos avançando, inclusive na aprendizagem, mas longe do suficiente para o mundo do século 21. Muita coisa precisa ser feita para mudar.

Por que ficamos atrás?

Claudia - Porque o Brasil adotou um processo educacional que enfatizava o ensino superior. A orientação era a de investir em uma elite ilustrada, capaz de promover desenvolvimento e depois se pensaria no que, hoje, se chama ensino básico. Infelizmente, quando esta elite se ilustrou, ela se divorciou do resto da sociedade. Somente no final dos anos 90, houve a universalização da educação primária e do ensino fundamental 2.

E como mudar?

Claudia - Fazendo um benchmarking para aprender com outros países e usando bons exemplos que se proliferam aqui no Brasil, a exemplo de Pernambuco e o Ceará. Se olharmos para os 30 primeiros países no Pisa - teste internacional de qualidade da educação-todos têm currículo, carga horária de 7 a 9 horas de aula, enquanto no Brasil a média é de 4 horas, a formação do professor não é somente teórica, mas profissionalizante, e há atratividade na carreira.

Como a senhora avalia a BNCC?

Claudia - Veja que o descompasso dos investimentos em relação a outros países é histórico. Só no final do ano passado, o Brasil passou a ter pré-currículo, alguns estánderes que vão nortear os Estados e Municípios para serem traduzidos em currículos estaduais. A BNCC é um imenso avanço para o País. Embora não perfeita, foi ousada ao colocar as competências básicas e as chamadas competências do século 21, porque não se faz um currículo só olhando para trás. Hoje, é fundamental uma escola que ensineopensamento crítico, abstrato e sistêmico, uma demanda destes novos tempos de 4a revolução industrial.

A aprendizagem do aluno depende da formação dos professores?

Claudia - Quando citei, anteriormente, que na década de 60 só havia 40% das crianças nas escolas, boa parte delas eram filhos de letrados. Assim como no passado, hoje, 68% do sucesso escolar de uma criança depende da escolaridade dos pais. Como é muito mais desafiador educar estas crianças, o professor precisa estar preparado para uma atuação diferente. Eu acredito que a educação emancipa e cabe à universidade preparar os professores para as crianças reais e concretas que terão em sala de aula.

Isso significa um repensar sobre a formação dos professores?

Claudia - As faculdades de educação enfatizam, exageradamente, a teoria em detrimento da prática. Um estudante de medicina está em um hospital universitário desde o primeiro ano de faculdade. Já um professor especialista do fundamental 2 ou do ensino médio tem três anos e meio do conteúdo que ele vai ensinar e seis meses de história, filosofia e sociologia da educação. A teoria não pode ser desvinculada da prática. A lógica de formação docente precisa urgentemente ser mudada.

E o que mais se faz necessário?

Claudia - Faltou pensar a atratividade da carreira. Porém não dá para falar em atratividade, sem mexer também em salários. Além disso, seria importante fazer algo como o Chile, que elevou a nota de corte no Enem para ser admitido em Pedagogia ou Licenciatura. Com isso, acoplado a alguns incentivos, se consegue dar um mostra clara à sociedade que ser professor não é para qualquer um.

Publicado em 17.06.2019 às 09:48

Educação com baterias recarregadas

Estudantes com dificuldades em interpretar um texto e fazer contas. A realidade alarmante da educação brasileira está fazendo com que muitos municípios revejam suas ações. É o caso de Lindolfo Collor. Nos últimos dois anos, o município do Vale do Sinos vem fortalecendo as estratégias a favor de uma educação de qualidade com projetos inovadores que envolvem os 790 alunos, do Jardim ao 9° ano. E para recarregar as baterias da aprendizagem nada melhor que trabalhar competências para a vida em sociedade e um bem viver. Solidariedade, empatia, ética e trabalho em equipe – habilidades socioemocionais previstas nas novas regras da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – já ganham as salas de aula.

Projeto com este viés é desenvolvido na Escola Municipal de Ensino Fundamental Monteiro Lobato. Para estimular o pensamento crítico, discutir preconceitos e questões típicas da idade, alunos do 9º ano AeB estão conhecendo a história de uma adolescente que morreu durante a Segunda Guerra Mundial e se tornou famosa por seu diário, que narra os bastidores do esconderijo judeu, um cômodo nos fundos de uma casa em Amsterdam. O projeto Você Conhece Anne Franck? foi pensando nos conflitos vividos pelos adolescentes desta faixa etária.

REFERÊNCIA

O projeto não se limita à leitura. “A obra faz relação com o conteúdo estipulado para o 9º ano, servindo de referência para trabalhos nas disciplinas de Língua Portuguesa, História, Geografia, Arte, Ciências, Matemática, Educação Física, Inglês e Ensino Religioso”, diz a coordenadora pedagógica da Emef Monteiro Lobato, Cristiani Fuhr. Mas como esta história pode estar associada à Matemática? A resposta é simples. Uma das tarefas dos alunos foi a de fazer o cálculo da área de suas casas e construir maquetes em escala, associando ao local habitado por Anne no esconderijo.

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