Publicado em 10.09.2018 às 08:49

Autorretrato da educação exige mais que uma interpretação oficial

"Estamos pagando o preço de quase 500 anos de pouco investimento e valorização da educação. Acordamos muito tarde."

Gabriel Grabowski, professor e pesquisador da Feevale Formado em Filosofia e doutorado em Educação Presidente do Consinos e membro do Conselho Estadual de Educação.

Um quadro de crescimento nos anos iniciais e finais, porém o Rio Grande do Sul foi um dos Estados a ficar de fora do script de bons resultados. E no ensino médio nenhuma das 27 unidades da Federação atingiu a meta. A régua dos indicadores da educação em solo gaúcho não poderia ser mais trágica, conforme o autorretrato do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2017 revelado pelo Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Mudanças, reformas estruturantes servem de interpretação oficial para a metamorfose educacional tão necessária. Mas o resultado para um cenário regional promissor depende do envolvimento de todos: pais, alunos, professores, instituições, enfim de toda a sociedade. Alicerce e troca de experiências que ganham defesa no projeto Educação em 1o Lugar, uma iniciativa do Instituto São Leopoldo 2024 e Grupo Sinos. O projeto, com extensão até 2024, ano do Bicentenário da Imigração Alemã, busca a melhoria do ensino, consequentemente nas avaliações do Ideb, nos 52 municípios dos Coredes Rio dos Sinos, Rio Caí, Paranhana/Encosta da Serra e Região das Hortênsias, mais Cachoeirinha e Gravataí.

Muito além da rotina diária das instituições de ensino, o Consinos verbaliza a área da educação em seu Plano Estratégico de Desenvolvimento da Região do Vale dos Sinos 2015-2030. Denominada de Estratégia 4, a proposta é a de fomentar a construção de um modelo de excelência na educação, através de um projeto pedagógico de referência internacional, em todos os níveis.

“Com iniciativas e parcerias entre Estado, municípios e universidades da nossa região, estamos desenvolvendo dois cursos de formação de professores e coordenadores pedagógicos para educadores das redes públicas municipais e estadual com verbas da consulta popular”, afirma o doutor em educação e presidente do Consinos, o professor Gabriel Grabowski. Os cursos, ofertados pelas universidades Feevale, Unisinos e Unilasalle, terão também investimentos em qualificação dos espaços pedagógicos das escolas públicas em 2018/2019. Tudo com o objetivo de atingir a qualidade e excelência no ensino.

Sabendo-se que a situação da educação é cada vez mais precária, há esperança ainda de se reverter esse quadro? Como?

Gabriel Grabowski - Em educação a esperança é um princípio permanente, um motor de ação. As avaliações são importantes, mas não captam o todo do processo educacional. Há muito trabalho qualificado nas escolas e projetos louváveis. Sobre as dificuldades faz-se necessário acreditar e continuar trabalhando.

No projeto do Consinos fala-se em projeto de vida para o futuro. As escolas ainda se limitam a uma grade curricular tradicional, deixando de pensar e preparar o estudante para o futuro?

Grabowski - A educação é para toda a vida e durante toda a vida. Hoje há um esforço dos educadores e das escolas de conscientizar e educar para projetos de vida, não apenas para sucesso e desenvolvimento individual. Os jovens já conseguem pensar melhor as seduções a que são alvo, estão menos consumistas e egoístas, preocupam-se com o outro e com uma sociedade melhor para todos.

O que deve ser repensando e revisto na educação?

Grabowski - O que deve ser mudado é transformar a educação em valor do conjunto da sociedade, em projeto de nação e política de Estado. Os segmentos e setores devem deixar de somente defender a educação, mas engajar-se mais na ampliação do financiamento, conforme meta 20 do Plano Nacional de Educação, estagnado nos últimos dois anos.

Nove anos de ensino fundamental, mais três anos no ensino médio. Estes 12 anos poderiam ser trabalhados de forma diferente com vistas ao futuro, a um projeto de vida?

Grabowski - Há um movimento de forças exteriores que quer submeter a educação e a formação precoce das crianças e adolescentes na perspectiva das competências e habilidades do mercado do trabalho e da profissão. A desobrigação de disciplinas nas áreas de formação humana na atual BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é a demonstração cabal desta tendência e que está sendo imposta sem muita participação das comunidades. Isso está ocorrendo de forma acelerada e inconsequente, sem o devido tempo para as pessoas processarem se é bom ou ruim.

A qualificação da educação básica pode ser consolidada com a participação das universidades? Como seria essa interação?

Grabowski - A educação básica e a superior precisam trabalhar em articulação e integração. A Constituição e a LDB definem esta colaboração entre todas as esferas e entes. O Plano Nacional de Educação, bem como os planos estaduais e municipais também. As maiores dificuldades estão nas prioridades das gestões eleitas, que priorizam seus programas em detrimentos dos já planejados. Sofremos de uma brutal descontinuidade de políticas.

Voltando à estratégia. Quando se diz referência internacional, qual exemplo poderia ser o espelho?

Grabowski - A Escola Técnica Liberato é um exemplo ideal. É uma escola, dentre outras, que tem respeito regional, nacional e internacional. Em tempos de globalização, estar atento e conectado com as experiências internacionais variadas é de grande valia.

O incentivo à continuidade dos estudos depende também dos professores?

Grabowski - Os professores estão sempre em formação e preparação. Muitas vezes, o que falta é a condição de trabalho, a valorização e carreira. O Brasil trata muito mal seus professores. Estudos da OCDE de novembro de 2017 apontaram que os professores do Brasil possuem a maior jornada de trabalho, as maiores turmas e os menores salários. Mesmo assim, são dedicados e muito responsáveis pelo que estamos avançando em educação.

Independente se rede pública municipal e estadual ou particular, qual é o déficit do ensino hoje?

Grabowski - São vários, mas destaco a reprovação, abandono e retenção (defasagem idade série), especialmente no ensino fundamental (séries finais) e ensino médio. Apenas 68% dos jovens entre 15 e 17 anos estão no ensino médio.

Falamos em referência internacional e excelência. Como o senhor classifica o atual status da educação no Brasil?

Grabowski - A educação no Brasil é tardia, elitista e pouco valorizada. Estamos pagando o preço de quase 500 anos de pouco investimento e valorização da educação. Acordamos muito tarde. Nossas elites nunca se preocuparam em oportunizar educação ao povo. Nossa “crise na educação não é crise, é um projeto” dizia Darcy Ribeiro.

O projeto Educação em 1o Lugar tem como apelo a valorização da educação, enaltecida pelos imigrantes alemães e, com parcos recursos, fizeram dela o sustentáculo do desenvolvimento da região. Passados dois séculos, a educação não deveria ter evoluído?

Grabowski - A educação reflete seu tempo, sua cultura, seu povo, suas elites e seus governantes. Como nunca foi prioridade aqui no Brasil, no resultado é o que se apresenta. É necessário sair do discurso para a prática. Ou educação é importante e investimos nela, ou congelamos seus investimentos por 20 anos como recentemente o Brasil optou.

O Plano Estratégico é datado 2015-2030. Quais os avanços na Estratégia 4 nestes três anos ? E quais as ações de agora em diante?

Grabowski - O Consinos é um articulador. No que nos compete continuaremos apoiando e nos empenhando para que os gestores e mantenedores de escolas façam sua função e cumpram sua missão educacional.

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